As duas formas de lidar com a crise

Quando morava em Itajaí, lembro da enchente de 2008, que comoveu o país. Nas primeiras horas de chuva torrencial, algumas pessoas recolheram o que estava à vista, se juntaram na sala para acompanhar as notícias e ver a chuva pela janela. Lembro daquelas senhoras dizendo “Ai, essa prefeitura que não limpa as ruas…agora ó, os bueiro tudo entupido!”.

Enquanto isso, outras pessoas se apressaram em comprar estoques de água mineral e comida, construíram elevações para seus carros e eletrodomésticos e montaram barricadas nas portas de casa. Eram tidos como malucos e exagerados.

Quando o nível da água na rua passou do meio metro, aquelas primeiras pessoas, que se ocupavam com as notícias da TV e a eficiência da prefeitura, já tinham seus carros comprometidos e andavam pela casa com água pelas canelas colocando geladeiras em cima da mesa. A água passou de dois metros de altura em alguns lugares e, ao fim da enchente, aqueles mais precavidos, tidos como malucos, foram os que perderam menos e ainda tinham tempo e condições de ajudar quem perdeu tudo. Depois da enchente, os mercados permaneceram fechados por mais algumas semanas. Nos poucos estabelecimentos abertos, um copo de água chegava a custar 15 reais, para sorte daqueles que se precaveram.

Existem as pessoas que se desesperam e as pessoas que se preparam.

A mesma coisa está acontecendo com a crise econômica. Algumas empresas já cortaram investimentos, demitiram funcionários importantes e encerraram parcerias, por receio. São essas pessoas que se ocupam em reclamar do governo ao invés de “montar as barricadas”. Parte delas se iludiu cortando os funcionários mais “caros”, eliminando reuniões e cortando parte da gestão. Passaram a ter menos controle do negócio e não sabem mais onde estão os erros. Como se não bastasse a crise em si, agora têm dezenas de novos problemas. Esse é o grupo das pessoas que se desesperam.

Ouve-se muito a expressão “enfrentar a crise” sem que haja um enfrentamento de fato, sem encará-la de frente. O termo em si já pressupõe que sejam tomadas ações no sentido contrário, mas isso não acontece.

Em conversas mais recentes com nossos prospects, todos se mostram receosos com a crise, mas com reações adversas. Alguns não querem nem saber de novas aquisições e investimentos. Estão se recolhendo. Há empresas fechando o setor da qualidade inteiro. Outros estão correndo no sentido contrário e fortalecendo suas bases. Soa estranho, mas está mais fácil de vender para certas pessoas. Tem hora melhor para investir na qualidade? Empresas com SGQ economizam mais de 340 milhões de dólares por ano evitando erros, segundo a Harvard.

Em nossa própria empresa, para enfrentar a crise, aumentamos o investimento em ferramentas de gestão e marketing, fizemos uma reestruturação completa do nosso principal canal de vendas, o website (ficou lindo, dá uma olhada), fortalecemos parcerias e alteramos algumas coisas no processo comercial e na qualidade de nossos produtos para atrair mais clientes.

Começamos há pouco tempo e hoje já sentimos os reflexos de nossa atitudes: temos o dobro de procura em relação à média do primeiro trimestre, que já foi maior que nos anos anteriores. Sinto que montamos as barricadas e nos preparamos para enfrentar essa tempestade.

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Autor: Felipe Setlik, especialista em Design Estratégico pela UFSC e coordenador de comunicação na Qualyteam.

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